
– Olha, préstenção: eu vejo umas coisas.
Eu era bem garoto quando tomei meu primeiro porre. Foi sim. Era tão moleque que meu pai tinha uísque mais velho que eu. Foi por isso que resolvi ir para uma festa acompanhado por uma de suas garrafas de 18 anos. Ele não sabe disso até hoje e, depois do tanto que bebi nas horas seguintes, eu também não deveria lembrar.
Todo buxixo comemorativo sempre fica mais animado quando tem o dobro de gente e deve ser por isso que o pessoal enche a cara. Mas todos aqueles gêmeos torna dificílima a passagem sem encostar em ninguém. Passei pelo sofá, mesinha de centro, abajur, aparador – opa, prazer: bola de pimbal – mesa de jantar, cristaleira (bônus 500 pontos) e pela porta do banheiro.
– Privada, eu te considero pra cacete.
Abracei o vaso sanitário e fui com tudo. Posso continuar nos detalhes? Eu acho que pode ser importante para o entendimento. Posso? Ok. Havia cadáveres do bufê com umas coisas verdes em decomposição pelo suco gástrico, uns submarinos de salame e um cruzador de canapé completamente destroçado pelas enzimas digestivas. No meio daquela confusão, consegui reconhecer plenamente apenas uma bolinha de queijo. Ela estava intacta e aquilo simbolizava a minha maior vitória infanto-juvenil: engolir 32 daquelas no menor tempo possível. Até hoje penso que eu também deveria ser reconhecido por colocar tudo pra fora no menor tempo, mas ninguém presenciou nem cronometrou aquele feito.
Sim. Eu tava sozinho com a privada quando aconteceu o inesperado. Todas aquelas partículas gosmentas começaram a rodar em sentido de rotação e translação, uma via láctea que ia girando no ar, com a bolinha de queijo ocupando sua posição solar de destaque. Uma profusão de luzes, explosões de estrelas e um buraco negro se abriu entre o resto de risole e batata palha processada. Dali surgiu a imagem da Antônia com aquela saia torta que rodou a cintura e o fecho foi parar na lateral. Feia. Se juntasse todo pêlo que tinha espalhado pelo meu corpo, não dava o buço dela.
Eu tinha certeza que era a Antônia. Tava mais velha, mais feia e tinha acabado de ser mãe. Segurava um bebê e andava de um lado pro outro, cantarolando. Imagina o Renato Aragão, cantando, vestido de Maria Bethânia. Assustou? A mim sim.
Descolei da privada me atirando contra a parede de ladrilho e o universo foi descarga abaixo. Ainda fiquei ali durante alguns minutos quando alguém entrou com a idéia de me curar com café forte e banho. É incrível como depois de ter bebido um monte sempre vem um sujeito querendo colocar você em contato com mais dois líquidos.
O dia seguinte foi uma dor-de-cabeça infernal e meu pai perguntando pela sua garrafa de estimação. Nem adiantava colocar a foto do uísque em caixa de leite que jamais iria encontrar seu infeliz paradeiro. No entanto, eu achei as minhas respostas nas festas seguintes.
Bebi, bebi, bebi - mais uma dose – bebi e bebi muita cerveja por me considerar grande o suficiente para ir nas festas sem a companhia de outra garrafa do meu pai. Conversa vai, manguaça vem, não demorou muito para o encontro com o meu par. É bom achar alguém que você pode colocar tudo pra fora.
Lá veio o universo rodopiando novamente. A cor mudou um pouco, entraram mais alguns astros aqui, saíram outros cometas ali, mas abriu-se mais uma vez o mesmo terrível buraco negro. Tive medo e senti um líquido quente esvaindo por entre as minhas pernas. Quer saber? Que se dane queu já tô no lugar certo pra isso. Fiquei sem piscar, repetindo mantramente “Antônia-não-Antônia-não-Antônia-não…”
Era o Abel. Ele estava na casa dele, andando sozinho da sala para a cozinha. Chegou perto da pia. Olhou para o lado. Abriu o armário. Tirou uma caixa bem do fundo e dali saíram inúmeras revistas de pornografia & sacanagem, uma para cada espinha no rosto. Quê? Uh!? A mãe dele apareceu e… lá foi o universo pelo ralo.
Amanheceu e outra dor na mente. Mas já tinha visto isso na TV: quem tem um dom especial sempre fica meio debilitado depois de usar seus poderes paranormais. A confirmação de que eu via o futuro veio um mês depois, quando fui chamar o Abel para uma pelada e o coitado disse que estava de castigo em função de outras peladas.
Com o passar do tempo, fui aprendendo a lidar com este grande presente de Baco. Eu bebia, vomitava, previa, porém com alguns avanços surpreendentes. Uma das coisas foi que a data da previsão era sempre equivalente ao ano daquilo que eu tava bebendo. Por isso que o caso Abel aconteceu rápido, uma espécie de futuro do presente em relação a…
– A Antônia.
– Porra, tirou as palavras da minha boca. Como você sabe que eu…
– A Antônia no telefone. Pediu pra você parar de encher a cara e ir dormir.
– Ah! Não enche, Cristóvão. Se você tivesse engravidado essa mulher, também tava aqui bebendo. Anda, coloca isso no gancho e me serve mais desse Uísque paraguaio.