17 de maio de 2007

Cama de gato


Isso era uma certeza bem certeira pra todo mundo que tinha pelo menos um olho funcionando na cara: Fabiana era bonita por demais. Negra de uns olhos verdes igual abacate maduro e um corpo feito arte de seringueiro na árvore. Tudo aquilo que se começava de cima, acaba em pernas de quem andava na ponta dos pés no meio da plantação de morango para não estragar a beleza e nem a promiscuidade que acompanhava a junção da fruta mais ela. E não pense que seu vestido não era diminuído pelas mãos para caminhar melhor não. Era por conta da mais pura luxúria de quem descobriu ser mulher faz pouco tempo e tava é gostando e muito disso. Pra quem era mal das vistas, mas tinha seu cheirador funcionando, ela também fazia gente empinar o nariz e ir fechando os olhos bem devagarzinho. Seu rastro era de banho tomado misturado com o perfume que a grama tinha ganhado de presente da chuva. Enquanto nóis criava tudo quanto é tipo de bicho, a dita cultivava suspiros. Era a número um no curral eleitoral da nossa zona da mata e havia uma fila enorme de pretendentes. Tudo trouxa. Fabiana passava com antolhos, mas teve um dia que ela se desviou pra Exclemêncio.

- Tu viu, Exclemêncio!? A Fabiana te quer, rapáze!
- Ah, é?
- É!
- Sei – e olhou pro lado que ninguém olhava.

Ê mania de mãe essa, que bota nome em filho antes de olhar pra cara do rebento. Exclemêncio sempre foi meio abestado e lembro da nossa professorinha que dizia: “Ô guri, presta atenção na aula. Fica aí, o tempo todo olhando pro nada. Você deveria se chamar mesmo era Reticêncio”. Entretanto, preciso deixar claro que existe uma enormidade de diferença entre ser paisagem e não gostar de abacate. Se Exclemêncio não montasse em touro sem alma que foi parido pela ciência, eu diria que o sujeito afrescalhou.

- Quantos dedo têm aqui, Exclemêncio?
- A palavra que tu disseste fora no singular, mas os dedos tão no plural: dois.

Teste 2 (porque sou teimoso):
Meti a mão em um monte de estrume fresco e tentei adubar a cara dele pra ver se a nariga tava em pleno funcionamento. Pois é, tava.

Voltei meus olhos pra reta que os dele faziam e lá na cerca tava Amelinha, a cabra que já tinha sido a responsável pela iniciação de metade do bando que não foi sequer notado por Fabiana. Ele se apaixonou perdidamente pela bicha e alguém estudado disse que era assim mesmo, coisa de química. Sinceramente, até então Amelinha nunca havia me dado pista alguma de que era clone de cabra.

A notícia se espalhou de olho pra nariz, de nariz pra olho e foi parar bem nos ouvidos de Fabiana. E ocê não sabe como é mulher com concorrência? A mulher começou a ferver e apitar feito panela de pressão e já na mesma hora aproveitou o fogo alto pra cozinhar a pobre da rival. Foi a última a comer a Amelinha.

No dia seguinte, Fabiana tava ainda mais bonita. O Zé Curandeiro comentou à boca de sapo miúda que isso era coisa de canibal que come o inimigo pra modo de ganhar os poderes dele.

- Seilá e nem quero saber – respondeu Exclemêncio, que passou a ser também conhecido como o último viúvo de Amelinha.

Eu não acreditei no que eu ouvi naquele instante e o que eu vi mais pra frente: ele, Exclemêncio Dapratrás, se engrançando com uma galinha*. De pio em pio, a mulher ficou sabendo e a galinha não serviu nem pras macumba de Zé.

Exclêmencio Comebicho tratou de arrumar outra namorada que não costumava falar nossa língua e a mulher (depois de uma lua transbordante de tão cheia) se transformou numa matadora de bicho em série. Quem não tava acompanhando a novela, lançou o boato que o tal Chupacabra tava de volta e tinha aumentado sua fome para o animal que aparecesse na frente.

O Ibama já tava procurando o responsável por tudo aquilo quando uma amiga chique de Fabiana resolveu meter o nariz, o olho, o ouvido e a boca na história. Inventou, veja você, de fazer uma festa onde cada um podia ir do que bem entendesse:

Gosta de mágico? Vá de mágico.
Gosta de médico? Vá de médico.
Gosta de boiadeiro? Então nem precisa ir atrás de roupa.

O povo gostou e lá foi todo mundo vestido um mais engraçado que o outro. Tava até difícil de reconhecer o Exclemêncio. Se não fosse por seu andar de viúvo da arca de Noé, eu teria passado direto. Mas quer saber da maior? Isso durou um tantinho de tempo apenas. Seus olhos se arregalaram feito coruja quando viram Fabiana entrar na festa. Ela tava com uma roupa estranha, feita de couro de boi preto que brilhava quando a luz batia. O tal tecido era todo costurado e fazia da mulher a figura de uma gata**.

Exclemêncio pegou Fabiana pelo braço e foi procurar por Toninho, um amigo achegado do pessoal que tava vestido de padre. Casaram ali mesmo e já foram procurar um telhado com uma casa embaixo pra servir de ninho. Hoje, Fabiana já fala em ter uns guris correndo pela casa e Exclemêncio (quem diria) concorda com tudo e ainda vive dizendo que vai puxar o terreno para a criançada poder ter até cachorro. Mas o que ele não nota é que Fabiana sempre segura mais firme na faca. Esse olho aí, Exclemêncio, é amigo do outro.


Notas do autor:
*o personagem não se refere à metáforas ou figuras de linguagem e sim ao animal galináceo e portador de penas.

**Mais uma vez, o personagem se refere ao bichano, não utilizando a palavra para fazer algum tipo de paralelo estético.

Ilustração da amiga e designer Chloe Valente.
www.flickr.com/photos/e_valente/

11 comentários:

Fabiana disse...

Adorei.
Ponto positivo pra vc.;)

Ana disse...

Excelente texto, Rodolfo! "Viúvo da arca de Noé" foi ótimo!
rs
E não é que o Exclemêncio se deu bem, rapá?
bjo

MH disse...

nossa, um dia vou pegar um abridor de latas pra ver o que vc guarda dentro da cachola pra sair tanta doideira. sim, eu disse cachola. Recheada de caraminholas e coberta de caracóis!

anna O. disse...

que associação inconsciente é essa com animais?!

Rodolfo Barreto disse...

Nem preciso perguntar porque você adorou, Fabi :)

Oi Ana,
Gostou? É "massa"? rs
Exclemêncio come quieto.
Ele só pode ser mineiro.

Mh,
Melhor você começar a vestir a roupa radioativa.

É identificação, Anna O.
Somos todos uns.

anna O. disse...

identificação por identificação, se cuida nego, que daqui a pouco vou começar a interpretar!
(brincadeira, hehe...)

Anônimo disse...

É uma honra ilustrar esse texto, Rods. Nunca habitei um conto que tivesse a palavra 'antolhos'.
Exclemente :) Beijo e obrigada pelo oportunidade. e.

Rodolfo Barreto disse...

@Erica
Quirina! Honra para mim ter sua arte aqui. Ficou linda :)

Gastón disse...

Pois é, e quando o Exclemêncio passou uma temporada aqui em São Paulo e resolveu passear no Zoológico? Depois que aquela mulher matou a Girafa (que dava um trabalhão) ele desistiu.

Ana Téjo disse...

Ai, Fabiana, veta o cachorro, minha filha. Pro seu próprio bem.

Fabiana disse...

Deixa o cachorro é mais um de olho no viúvo da arca de noé.
Um cachorro sempre encontra outro.