23 de maio de 2007

Satúrnica


Mulheres combinam com jóias. Desde que os homens deixaram de lado a profissão de pirata, acabaram afundando com suas poucas peças sem brilho. Mas mulheres continuaram belas, flutuando com seus baús e guardando muito bem os seus tesouros.

Era por isso que ela não conseguia achar. A primeira regra de se enterrar um tesouro, é fazer uma marca no chão. Pensando bem, não ia ficar bonito uma linha pontilhada começando na porta de entrada, percorrendo toda casa e indo terminar em um “x” no meio do quarto. Pra ser assim, melhor mesmo nem encontrar o… o que é mesmo que ela procura?

- Cadê!!? Nessa caixa? Não… merda.

Mulheres podem ser ótimas com tesouros, mas elas têm que assumir que são poucas as que entendem de mapas e, digamos, sentido de localização. Portanto, não adianta que você, leitor, torça para que ela encontre. Ela não vai. Nem depois desses pulinhos de promessa pra São Longuinho.

- Achei! Não…

A eterna procura de Ana teve seu início quando ainda cabia em uma arca. Estavam todos os amiguinhos brincando de passa-anel, lado a lado, com as mãos espalmadas e unidas. Enquanto isso, o dono provisório do anel foi passando de um em um, bem devagar, com as mãos na mesma posição eclesiástica, bem suavemente, escolhendo com os olhos quem seria o amigo digno de ser o próximo. O passar das mãos fazia cócegas e provocava um acerto arrepio bom, muito bom... e agora? Cadê o anel?

Estava com Ana. Ela conseguia sentir o frio do metal na palma da sua mão e era difícil ter que esconder o sorriso da vitória. Tinha que ter uma postura de jogador de poker 14 anos antes de saber o que isso significava. Porém, não assumiu jamais que o anel estivera com ela. Fugiu dali com o pequeno objeto escondido. Para os adultos que olhavam de fora, a brincadeira havia acabado sem vencedores. Puro engano.

Em um canto, escondida dos últimos olhares desistentes, Ana olhava seu prêmio. Um anel de plástico, desses que piscavam colorido antes da bateria acabar. Fechou os olhos. Começou a juntar saliva como fazia para tomar remédios sem precisar de água e pronto: engoliu.

Após a garganta denunciar o movimento do anel dentro do seu corpo, um leve sorriso se abriu antes mesmo dos seus olhos. Aquilo era seu complemento. Um objeto que não havia nem começo, nem fim. Exatamente como o seu nome.

A cada anel engolido, seu corpo passava por sensações quase indescritíveis. Em uma só noite, foram 5 de uma vez. Uma overdose. Ao dormir, suas alucinações a levaram até as primeiras olimpíadas de Atenas. Um pódio onde os anéis se transformavam no símbolo olímpico. Podia sentir os louros. Sabia do poder daquela pequena roda. Girava, movimentando um moinho, alimentando um vício que se tornou cada vez maior. Uma roda gigante.

Iniciou-se em pequenos saques. Entrava em lojas e fingia bocejar, levando anéis e mais anéis à boca. Sim, era ridículo. Amigos suspeitavam de cleptomania, mas não comentavam. Preferiam o clichê remasterizado de que vão-se os anéis, ficam-se os amigos.

Ana era a única mulher que não usava um único anel e sempre observava as mãos das rivais. Salivava nas festas de pompa.

- Mas o que você olha, Ana?
- Nada. Gosto do jeito como gesticula. Acho bonito.

Em uma dessas festas, conheceu seu noivo. Ela tinha acabado de sair do banheiro com um rosto de felicidade por ter encontrado um anel esquecido na pia por uma das convidadas. Nada mal. O sabão pode até piorar o sabor, mas escorrega que é uma beleza. Seu semblante e energia momentâneos foram suficientes para encantar o rapaz e hoje completam 5 anos de namoro. Por conta do número redondo, ele a chamou para um jantar especial. Sem problemas. Lindo. Mas cadê esse anel? Ela precisava matar aquela vontade antes que…

Din don!
Din don!

Não é possível. Só podia ser ele. Não, não. Pensou em dizer que estava passando mal. Não, não ia adiantar. Ele ia querer entrar. E agora?

Din don!

Olhou para o espelho, tirou do reflexo uma dose de controle e foi abrir a porta. Ele trazia flores e sentiu todo o nervosismo nos olhos dela. Será que ela desconfiava do que ele havia planejado? Provável. Afinal, foram anos e anos de relacionamento antes desse dia. Do grande dia. Sem também conseguir esconder suas mãos trêmulas no bolso, o rapaz tirou de lá uma pequena caixa, abriu e fez a pergunta que se faz a toda noiva.

- Sim, meu amor, era tudo que eu mais queria nessa vida – respondeu Ana com um beijo apaixonado.


Ilustração feita novamente pela designer Chloe Valente.
www.flickr.com/photos/e_valente/
(a gente pediu bis, né?)

15 comentários:

e. disse...

bela visão da mulher. estamos a procura de muito mais do q um príncipe... tvz de planetas mesmo. adorei ter ilustrado isso. brigada, bj, e.

Luz Maia disse...

Um blog que não tem começo, nem fim, o que pra mim significa vontade de ler e reler.
Exatamente como o nome Ana.
Talento: vc tem.

Nana disse...

Já adorava os seus comentários no Vida Perra, sempre observações originais e bem-humoradas. E amei o blogue (já tá até linkado no meu, que também acabou de começar, mas não está tão inspirado como o seu...).
Agora, como você deu permissão pra corrigir erros de português, aí vai: na apresentação do blogue, você escreveu "Todos os contos a seguir, não estão no livro". Não tem essa vírgula. Sugestão: Nenhum dos contos a seguir está no livro.
Beijo

MH disse...

ana, o nome sem começo nem fim... adorei! rs

e essa mania doida, de engolir anéis, deve ter o escatológico resultado do resgate... eca!!!!

Fernanda Salgado disse...

Peraí, peraí, calma lá!!!

O primeiro anel... O da brincadeira de criança. Era de metal ou plástico? Tá querendo me confundir?

Rodolfo Barreto disse...

@e
Essa ilustra ficou sensacional e foi legal esse exercício livre e às escuras, né?
Não se dêem o trabalho de procurar. É só ficar no caminho e deixar que a gente encontre vocês.

@Luluz
Uma menina de um site de fotos me disse que você vinha me visitar e fiquei feliz. Seja bem-vinda sempre :)

@Nana
Eu ando tanto lá pelo Vida Perra que o Gastones separou o sofá-cama da sala pra mim. É bom pra cacete.

Nem vem com essa modéstia sobre o seu blog. Eu sei que você tem planos malévolos...rs Ando devendo uma visita lá, né? Pode deixar que tô indo agora mesmo provar aquelas letras.

E por falar em letras, pode fazer o rastreamento gramatical de radar sim! Eu preciso de amigos revisores e a MH disse que vai me ajudar também :}

@Fernandoca
Ai, ai, designers... o anel em questão é composto de dois materiais: prata paraguaia em sua circunferência e plástico vagaba pisca-pisca-pifa em sua pedra preciosa. Hahaha. Figura.

Nana disse...

Não é modéstia, não. Ando numa fase de pouca inspiração. Além disso, seu blogue é beeeeeem mais bonito que o meu. Vai ser uma honra receber sua visita lá. Mas não repare na feiúra, é que eu sou uma analfabyte nessas coisas de html, programação visual... Vixe!

Fabiana disse...

Com humor ,sensibilidade e a dose de loucura de sempre, voce fez um conto muito bacana. Mais um ponto positivo pra vc.
bj

Nana disse...

Rodolfo,
Comé que você trocou "comentários" por "embaixo do chuveiro" na barra dos seus textos? Me ensina?
Beijo

Ana Téjo disse...

Primeiro: dois contra um não vale. A Chloe ilustrando e você escrevendo é covardia!
Segundo: AMEI esse conto. Ficou intrigante, divertido e, ao mesmo tempo, delicadíssimo.
Clap, clap, clap!

Aline disse...

Adorei o blog novo!
Tem idéia até nos comments. (o que eu adorei também).

Beijinhos.

Rodolfo Barreto disse...

@Nana
Que nada. Blog é igual casa: a gente vai decorando aos poucos. Legal saber que você já fez algumas mudanças :)

@Fabi
Será que eu vou conseguir ser a Mc Pessoa do Mês?

@Téjo
Sabe como é: tive que pedir reforços. Coisa de blogueiro principiante. Hahaha.

@Aláinê!
Seja bem-vinda. É legal ver o pessoal dando um alô e comentando. Com idéia, sem idéia, vamo que vamo :)

danilo disse...

que novidade mais boa!
sentia falta dos textos no fotolog.
agora vc ta nos meus "favoritos" literalmente!
abraço!
:]

Claudia Aleixo disse...

Adorei!!! Mas fico enjoada só de pensar em sem querer engolir um anél...Até o "RESFENOL" custa a descer pela garganta....rsrsrs Beijo

Anônimo disse...

Sim, provavelmente por isso e